O tio Salvador - Críticas da Época

Ano: 1922
Críticas:

(O Imparcial)
"A nova comédia de Armando Gonzaga 'O tio Salvador', ontem representada, em primeira, no Trianon, vem formar, galhardamente, junto ao 'Ministro do Supremo' e 'O amigo da paz'. Em expontaneidade e graça, nada deixa a desejar aos primeiros originais do novel autor. Sob o aspecto de factura, nota-se-lhe uma tendência mais acentuada para a simplificação dos processos de que usa, conseguindo cenas de uma naturalidade encantadora.
O enredo de 'O tio Salvador' é singelo, quase ingênuo. Um simples episódio familiar. Um casal de recem-casados, Beatriz e Alberto, que vivendo felizes na modéstia, sem luxos nem grandezas, recebe a visita de um tio rico, que andava a viajar, e que lhes traz, com sua fortuna, conforto e elegância. Pensa assim o velho boêmio fazer a felicidade da sobrinha, ao mesmo tempo que arrasta para as suas pândegas o Alberto.
Beatriz sofre imenso com isso, e , afinal, depois de um pretenso chá, que degenera em grossa bebedeira, confessa ao tio a sua infelicidade, ao que Salvador, reconhecendo a sua falta involuntária, resolve extar-se novamente, partindo na mesma noite para a Europa.
Em torno desse tema simplíssimo, Gonzaga bordou cenas hilariantes, jogando com tipos caricatos apanhados com felicidade à vida burguesa.
A maneira exata de pintar a cena, o colorido de verdade com que fixou os lances cômicos e os levemente sentimentais da peça, lembram os de Martins Penna, que no juízo de Sylvio Romero, foi o fotógrafo da sua época.
É fato que os finais dos atos carecem de maior relevo, o que no entanto não diminui o interesse despertado pelo desenrolar da ação.
O novo original de Armando Gonzaga é, no gênero, uma comédia francamente apreciável.
No desempenho salientaram-se Appolonia Pinto, que foi uma 'D. Filó' formidável de naturalidade; Arthur de Oliveira, um 'Clemente' engraçadíssimo; Palmyra Silva, como sempre uma perfeita criadinha; Placido Ferreira correto no 'Dr. Amancio', e Cordélia Ferreira, Que na 'Ritinha'conduziu-se com habilidade.
Itala Ferreira, estreante, andou ainda com certo ar de constrangimento, na pele de uma carinhosa e honesta dona de casa. É natural, depois do gênero Ba-Ta-Clan...
Resta ainda notar que na peça de Gonzaga, embora seja um lídimo original brasileiro, não há bodas, não casa ninguém, o que é, realmente digno de rasgados louvores....[...] "

(A Tribuna)
"O Sr. Armando Gonzaga é um escritor teatral já admirado pela nossa platéia. Em homenagem à artista Apollonia Pinto foi levada, ontem em 'première', uma peça do festejado autor. É um trabalho muito interessante e que faz rir, naturalmente, do primeiro ao último ato, sem enredo, de ação tênue, mas muito bem equilibrado e que alcançou um merecido e justificado sucesso. O Sr. Armando Gonzaga fotografou admiravelmente todos os tipos de sua peça e dadas aas situações, estas figuras se movem com naturalidade, emprestam grande caráter à obra e fazem rir, rir sempre.
A peça gira em torno de um tio riquíssimo, que volta de longa viagem - e instala-se na residência de sua sobrinha, transformando-a materialmente e infiltrando as suas qualidades de boêmio elegante no marido de sua sobrinha, por conseguinte transformando a alegria do lar em um sério pesadelo.
O tipo do filósofo a pregar moral e a pensar o contrário, máxime quando pretende negociar uma casa, no Meier, que tinha custado 10 contos por 50 contos, sendo 'um homem que não se afastava nunca do caminho do bem e da retidão', é real. Assim são todas as figuras - apanhadas ao vivo e flagrantes de naturalidade. Armando Gonzaga realizou uma obra interessantíssima, de espírito sutil e leve, cheia de graça, que não cansa, muito pelo contráro, encanta o espectador, dando-nos a impressão que os seus atos são realizados em segundos.
A interpretação foi magnífica, destacando-se Placido Ferreira, Apollonia Pinto, Arthur de Oliveira, Teixeira Pinto, Elvira Mendes e Maria Grillo.
Na interessantíssima comédia estreou a atriz Itala Ferreira, que saiu-se a contento. Está pois de parabéns o distinto escritor Armando Gonzaga e a empresa do Trianon."



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