Cala a boca, Etelvina!... - Críticas da Época

Ano: 1925
Críticas:

( Jornal do Comércio)
" A Companhia Procopio Ferreira inaugurou ontem, no Trianon, a temporada de originais brasileiros com a comédia em três atos de Armando Gonzaga, 'Cala a boca, Etelvina!...' E fê-lo com um grande sucesso, por isso que a nova peça, que foi bem representada, foi recebida excelentemente pela platéia da boate da Avenida.
O enredo da comédia, embora com certa analogia com o de outras peças, é extremamente engraçado.
Etelvina é uma criada cujo vocabulário é só de gíria e que de improviso se vê elevada à posição de dona da casa em que era empregada. E isso porque a patroa, que se indispusera, impensadamente e por ninharias com o marido, fora para a casa dos pais. Essa separação se deu momentos antes do casal receber a visita de um tio rico e de uma baronesa que não conheciam a dona da casa e que contemplaria no testamento o novel par; e quando o tio chegou, o sobrinho e o seu sogro - que se aproveitava do dinheiro do genro - vendo-se embaraçados, apresentaram a Etelvina... Esta ficou sendo a dona da casa, e são de prever os desastres que fez com os seus modos e linguagem.
O genro e o sogro em embaraços, tinham ainda, ao cabo de vários dias, para não perderem as heranças, de lutar contra as suas mulheres, porquanto a esposa, arrependida do que fizera, volta e meia aparecia em companhia da mãe. As complicações, interessantíssimo, sucedem-se em ordem natural, caminhando para o desfecho esperado; a explicação de tudo e a reposição das coisas nos seus eixos.
O Sr. Procopio Ferreira, no papel de Libório, o sogro, tem uma admirável criação. À vontade no papel, manteve a platéia em constante hilaridade.
O Sr. Restier Junior, no Adelino, o genro, houve-se com propriedade.
Sobressaíram também, como habitualmente o Sr. Manoel Pera e as Sr.as. Mathilde Costa, Hortensia Santos e Itala Ferreira, que fez a Etelvina.
Os demais contribuíram para o êxito da engraçadíssima peça.
O cenário, de J. Prado, muito bom."

(O Jornal)
"Interessantíssima, por seu entrecho e desenvolvimento por seu diálogo e por suas figuras, a comédia 'Cala a boca, Etelvina!... ', do Sr. Armando Gonzaga, representada ontem em 'premiére ', no Trianon, resultou em um novo êxito para o seu autor e para a Companhia Procopio Ferreira.
Excelente comédia de intriga, formam-na três atos teatralmente bem trabalhados, férteis em situações risíveis, servidos por uma dialogação natural e espirituosa, nos quais se movimentam figuras delineadas com propósito e graça. Para fazer rir - o que conseguiu fartamente - não desceu o autor a infantilidades nem resvalou tampouco para a farsa. Daí, através o desenrolar das suas cenas, o perfeito equilíbrio da comédia, que interessam e divertem o espectador, do 1° ao último ato. Não há um ato melhor que outro nem há figuras melhor ou pior cuidadas; a ação não sofre desequilíbrios e o relevo dos personagens principais é uma resultante, natural, da atuação dos mesmos no desenvolver da intriga, sem prejuízo das figuras acessórias.
Por tudo isso, é certo, mereceu a comédia de Armando Gonzaga os melhores cuidados da encenação e desempenho, que foram assim elementos de valia para o êxito por ela alcançada.[...]"

(O País)
"Iniciou-se bem a temporada de originais brasileiros do Trianon.
'Cala a boca, Etelvina!...', do Sr. Armando Gonzaga, é uma engraçadíssima comédia. Desde o enredo, onde a cada momento surgem situações cômicas que fazem rir gostosamente, até as menores minúcias que giram em torno do assunto explorado, tudo está bem disposto, bem conjugado, para o complemento de um espetáculo divertidíssimo.
Que se pode exigir além disso de uma companhia como a do Sr. Procopio, cujos valores se completam de forma a exercitar o teatro ligeiro com a dignidade compatível com o público fino que freqüenta o Trianon?
O Sr. Armando Gonzaga já é um autor consagrado para que seja preciso acrescentar mais alguma coisa ao seu valor, após a apresentação desse seu último trabalho, onde se evidencia a força de um espírito conhecedor de teatro, sem que se possa entretanto, dizer que seja uma das suas melhores produções, tão interessantes são todas elas. Para teatro de sessões, de gênero leve e divertido, nada mais se pode exigir. E tanto assim é que o público numeroso que afluiu ao Trianon, atraído pelo nome do autor e pela simpatia avassalante de Procopio, deu as mais vivas demonstrações de agrado, rindo perdidamente e aplaudindo com calorosa satisfação.
É verdade que para isso, contribuíram eficazmente os intérpretes, dentre os quais ainda e sempre é preciso distinguir Procópio, que juntou com seu Libório de ontem mais uma notável criação à sua já vasta galeria de tipos, não sendo também possível deixar de mencionar a Sra. Itala Ferreira, cujos progressos deixam prever para muito breve uma excelente artista de comédia brejeira.
A 'mise-en-scène' de Christiano de Souza é, tanto quanto permite o limitadíssimo espaço do palco, bastante vistosa e os cenários, de J. Prado, igualmente dignos de apreço.
Os leitores devem ter curiosidade em conhecer o enredo de 'Cala a boca, Etelvina!...' Mas não há de ser por estas linhas... Ele é tão simples, tão divertido, que mais vale a pena dar um pulo ali ao Trianon para bem conhecê-lo e melhor apreciá-lo, rindo folgadamente durante alguns quartos de hora.
E haverá coisa mais salutar, nestes tempos de tristezas e aperturas, do que esquecer as mágoas dando uma boa gargalhada?..."




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